Morte sobre duas rodas
Data de Publicação: 19 de julho de 2025 16:51:00 Texto de Adriano Nogueira
O tempo está passando rápido demais. Creio que você já ouviu esta frase ultimamente. Parece ser verdade, e se não bastasse a natural abreviação dos dias, a morte tem contribuído para este curso, chegando bem antes que deveria para alguns, interrompendo curso espontâneo da vida.
Inevitavelmente o fim da vida chega para todos nós, entretanto, não deveria ser habitual ou estar presente no dia a dia, acontecendo precocemente, rápido demais, veloz e tragicamente sobre duas rodas.
Menos de três meses tivemos quatro vítimas de acidentes de motos. O jovem J. A. S. A. pilotando uma moto veio a óbito na manhã de sexta-feira, dia 16 de maio de 2025, em um grave acidente na BR 262, saída para Campo Grande.
Dia primeiro de julho, o garoto E. S. de 18 anos, pilotando uma motocicleta, faleceu em uma colisão com um ônibus na BR 262, KM 231, saída para Água Clara.
Madrugada de 3 de julho, na rua Rachid Abes, bairro Jardim Vista Alegre, D. L. N. de 27 anos teve a vida interrompida após sofrer um acidente pilotando uma moto e na data de 14 de julho, ainda menino, J. B. teve a sua passagem em um acidente de moto na rodovia MS 338, estrada para Camapuã.
Quatro acidentes que resultaram na partida de quatro homens em plena sede de viver. Lamentavelmente, não somente eles são vítimas, mas seus familiares também. A fatalidade é uma das ferramentas usadas pela ceifadora.
Uma cidade chocada. Perplexa. Procurando entender e obter respostas. No íntimo, nosso sentimento não é de acusação, nem de ódio dos "meninos do grau", dos irresponsáveis, muito menos das expressões "bem feito", "menos um arruaceiro no trânsito". Não são os sem juízo. Não são os sem medo, os "descabeçados", as mentes fracas ou os sem lei. São garotos, jovens, pais, filhos, netos, seres humanos, que em cima de uma motocicleta, pilotam desejos e sonhos enquanto giram os pneus. E, às vezes, quando dá errado, o inesperado acontece, involuntariamente, trafegam no caminho do óbito.
Quando alguém quer tirar a vida do outro, geralmente, usa-se uma arma de fogo, uma arma branca ou outro objeto perfurante. Quando alguém quer tirar a sua própria vida, se suicidar, usa-se uma corda no pescoço, cortam-se os pulsos, se entope de remédios, se joga de uma certa altura ou dá um tiro na cabeça.
Ninguém queria matar ou mesmo imaginava que iria morrer.
Deus nos concedeu superpoderes sim, não habilidades extraordinárias com uma visão privilegiada, uma armadura de aço com capacidade para nos proteger de grandes impactos ou voar ligeiro como o Super-Homem; uma velocidade como a do herói The Flash; nosso corpo não se regenera após cortes e quebraduras o Wolverine; nossos corpos não são como o Homem de Ferro.
Somos criaturas moldadas e semelhantes à imagem de Deus. Tudo o que Deus fez e faz é perfeito, inclusive nós. Tudo que é construído pelo homem é imperfeito, não confiável, pacífico de dar problema.
A motocicleta é um dos veículos mais baratos, com manutenção fácil, rápida e de menor custo, apresenta economia de combustível, oferece agilidade no trânsito, com estacionamento descomplicado e, ainda, proporciona sensação de liberdade. Por outro lado, uma moto não tem cinto de segurança, nem algo parecido com um airbag, somente um capacete é obrigatório usar, segurança reduzida quase a zero. O corpo da pessoa é o para-choque, inevitavelmente, vai absorver todo o impacto de uma queda, de uma batida, o que, na maioria das vezes, é fatal.
A motocicleta é o meio de locomoção que mais mata no Brasil. Vem em primeiro lugar com, aproximadamente, trinta e três por cento das mortes no trânsito, ficando distante do segundo, que é o carro, com vinte e quatro por cento.
O fato curioso, e que provavelmente nos aponta algo, é que, em quase toda a sua totalidade, os óbitos acontecem com os homens jovens. Absurdamente, o sexo masculino é o principal personagem desta triste realidade.
A dona morte encarregada de nos mostrar o fim da linha, o caminho sem retorno, o infinito desconhecido, que cessa a nossa existência terrestre, não escolhe idade, sexo, classe social, religião ou raça, todavia, nestes trágicos falecimentos de pilotos homens jovens, ela demonstra uma certa preferência, além de satisfação e deleite.
De quem é a culpa destes acontecimentos?
De ninguém ou, talvez, de todos nós enquanto sociedade.
Os pais não devem se sentir culpados. Não imputamos julgamentos ou condenações aos que partiram, que sigam em paz e para a luz divina. As muitas leis de trânsito existem. O trabalho policial ou das autoridades competentes é de conhecimento de todos, assim como a existência do risco, do perigo, da desgraça. O progresso, que trouxe a pavimentação, o asfalto uniforme e bem-feito, não deve ser responsabilizado. Nem mesmo a falta de uma pista adequada, lugar propício, com estrutura e segurança destinado às práticas das manobras radicais aos aventureiros de duas rodas. Ademais, qualquer cidadão, cotidianamente, está exposto a um acidente como este: sendo o provocador ou a vítima, ou os dois ao mesmo tempo.
Infelizmente, nada podemos fazer para trazê-los de volta, mas sugiro que nos coloquemos no lugar dos pais, das mães, que nunca mais terão a presença do único filho; dos familiares, que perderam um ente querido; dos amigos que sentirão a falta. Neste momento de luto, que choremos juntos, que possamos dimensionar a dor, a tristeza e as emoções que estão carregando em seus corações e almas. Empatia na sua essência.
Nesta vida não existe imunidade.
Não se escolhe quando ou como quer morrer.
Ontem foram eles. Hoje pode ser eu ou você.
Quando o infortúnio bate à nossa porta, o choque profundo nos alcança, não somos só nós que sofremos e recebemos o baque, o inesperado. As pessoas que nos cercam, que convivem conosco, e principalmente, as que nos amam, ficam dilaceradas, arrebentadas por dentro e por fora, e que nos abracemos para ficarmos firmes e seguirmos adiante.
Amanhã pode acontecer com alguém que seja querido demais por nós.
Não tenhamos a língua afiada, não cultivemos sentimentos confusos, Deus é quem sabe perfeitamente e permite o acontecer de todas as coisas.
Unicamente, o Todo-Poderoso é quem tem o domínio do futuro, então, em nossas orações, pedimos força, alívio e conforto aos que aqui ficam e que Deus proteja os nossos pilotos de motos, homens e jovens, dos acidentes fatais e que caminhem por estradas seguras em uma vida duradoura.
Por Adriano Aparecido Nogueira.
Ribas do Rio Pardo/MS, 17 de julho de 2025.
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