Busca por atestados falsos para vacinar contra covid-19 preocupa médicos: “Não é só uma receitinha, é fraude”
Municípios passaram a vacinar indivíduos com comorbidades, mas profissionais da saúde relatam procura por receitas mesmo entre pessoas saudáveis. Prática atrasa imunização com pessoas mais expostas a riscos de desenvolver a forma grave da doença
Por Felipe Betim do El País
O Brasil passou a observar, nas últimas semanas, uma nova estratégia para furar a fila da vacinação contra a covid-19. No momento em que Estados e municípios brasileiros começaram finalmente a imunizar as pessoas com comorbidades (que podem agravar o quadro de quem contrai o coronavírus), muitos médicos relatam uma corrida por atestados que provem a existência de uma das enfermidades —como hipertensão, diabetes ou insuficiência cardíaca, por exemplo? mesmo entre pessoas completamente saudáveis. “Acordei no último sábado e havia três mensagens de pessoas que conheço. Uma delas queria cinco receitas, para ela, para os irmãos e as cunhadas. E ainda teve a capacidade de mandar a foto de uma receita com o medicamento que ela queria”, conta a clínica geral J. K*,que atende em consultório particular em São Paulo. “Eu fiquei muito brava e nem respondi. Eu não fiz nem para meus irmãos, que acham errado e então esperando na fila a vez deles”, disse.
O EL PAÍS contactou seis médicos que asseguram ter passado pelo mesmo tipo de situação (ou ouvido de colegas da área relatos como este), sempre com o objetivo de burlar a fila da vacinação, que no Brasil segue em ritmo lento. Até esta sexta-feira, pouco mais de 41 milhões de pessoas haviam recebido a primeira dose do imunizante contra a covid-19 no Brasil (menos de 20% da população) e, destes, 20 milhões receberam a segunda dose (menos de 10% dos brasileiros). Para o médico Gerson Salvador, especialista em infectologia e saúde pública, afirma que “a palavra certa é fraude”, já que são pessoas que “buscam fraudar um documento com o objetivo de obter uma vantagem.”
Não se trata de algo totalmente novo. No Brasil, é comum que pessoas peçam receitas para conseguir remédios de tarja preta ou atestados para abonar falta no trabalho, por exemplo, mesmo sem passar por consultas médicas que comprovem essas necessidades. Valem-se de relações pessoais para pedir um “atestadozinho” ou uma “receitinha”, sempre no diminutivo, como forma de suavizar a situação, enfatiza Salvador. Entretanto, é absolutamente vedado, acrescenta ele, que um profissional escreva uma receita ou atestado sem que haja atendimento médico ou registro no prontuário. Fora desse contexto, trata-se de uma infração ética por parte do profissional.
O problema é que isso agora acontece em meio a uma pandemia que já matou mais de 444.000 pessoas, segundo dados do Ministério da Saúde. “É grave em qualquer situação, mas quando acontece para a pessoa furar a fila da vacinação, isso tem uma gravidade ainda maior. Impacta não só a vida daquele indivíduo, mas sim o conjunto da sociedade”, argumenta o médico.
A campanha de imunização contra a covid-19 não é igual a outras em que toda uma família pode se vacinar num mesmo dia. Não há doses suficientes para imunizar toda a população brasileira e critérios para vacinar quem tem mais risco de morrer são necessários. Assim, um indivíduo saudável que recebe a vacina que deveria ir para alguém com comorbidades está automaticamente colocando alguém para trás da fila. “Se isso acontece de maneira mais frequente, tem um impacto grande na campanha.”
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Uma pessoa recebe uma dose da vacina contra a covid-19 em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, em 21 de abril. Menos de 20% da população brasileira recebeu a primeira dose do imunizante.RICARDO MORAES / REUTERS |

