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O João foi, levou muito de nós, mas deixou tudo de si

O João foi, levou muito de nós, mas deixou tudo de si


O João palmeirense de alma, coração e camisa oficial deixa, sim, um legado de amizade, de respeito mútuo, de exemplo familiar.

(*) Homenagem feita por Sandra Luz

Existe um movimento repetido aqui e ali em “falar” com e para quem perde a batalha para a morte. Juro que tentei fazer isso, mas será impossível. Não consigo falar para o João Paulo. Inventar um diálogo que teria com o João Paulo da Matta, o meu amigo, o amigo do meu filho, o amigo de tantos é inútil.

Recuo porque em hipótese alguma diria diretamente ao João nada disso. Prefiro dizer a quem vai ler, quem sabe alguém leia. E faço isso porque não precisaria dizer nada, caso ele ainda estivesse aqui, aí, por todo lado, como eu sei que estava.

Vi e li as homenagens ao João no Facebook e sei que todas são mais que merecidas. Entre desabafos, conselhos e lamentos, há o desejo de que o João esteja bem, que tenha descansado, que vá habitar um local melhor que a terra ocre campo-grandense.

É lógico que cada pessoa que escreveu ou que não escreveu, mas deseja esse tal lugar melhor, sabe que não há espaço comparável àquele compartilhado com o João. Nós o queríamos aqui. Nós o queríamos com aquele sorriso certeiro, aquela coragem instigante e aquela simpatia única.

Nós queríamos o João assando carne na mesa grande da varanda da casa que ele construiu com a Lu para a Bia e o Joãozinho receberem os amigos. Nós queríamos ser recebidos pelo João Paulo, comer dobradinha feita por ele, saborear o bolo da Lu, beber, tomar porre, rir e perguntar como fazer para curar umbigo de bebê, secar ferida de cesariana e ressaca de vinho chileno.

Só que o João virou saudade e ainda dói do início do estômago até a garganta. Dói porque dá vontade de gritar, berrar e ecoar que NÃO PRECISAVA. Ele não precisava. A morte do João poderia ser, sim, evitada. E eu não sou profissional da saúde, como o João, mas eu sei.

Não foi para o vírus só que ele perdeu. Foi para a falta de informação, foi para a preferência à desgraça, foi para a maldade. As conspirações geopolíticas não cabem na morte do meu amigo. Também não cabe a confusão criada para desviar atenções.

O João não cabe em meme, em ilações. Ele era o homem que casou com a primeira namorada e, com ela, teve dois filhos. Ele era o homem que socorria amigo de filho e acertava a veia de bebê sem fazer o pequeno chorar. Ele era o homem que, como profissional, decidiu abraçar uma causa e começou a defender a coletividade.

O piso de 30 horas para enfermagem seria a bandeira do “João da Enfermagem” rumo à Câmara de Vereadores de Campo Grande. E, ao não escolher por uma pauta de costumes, preferiu brigar por tantos que, como ele, tinham que se revezar em muitos empregos para manter a família.

A Lu perdeu o marido, a Bia e o Joãozinho o pai, mas Campo Grande perdeu alguém que optou por dividir a juventude com a comunidade. O João palmeirense de alma, coração e camisa oficial deixa, sim, um legado de amizade, de respeito mútuo, de exemplo familiar.

O “João da Enfermagem” seria outra história, uma que não posso imaginar, mas talvez supor boa. É, ele foi tolhido antes de tudo, em uma cama de hospital, distante da casa do EcoParque, onde há tantos anos o encontrei com a Bia nos braços e, da Lu, recebi um convite para jantar.

Ainda bem que tive esse privilégio. Muitos jantares depois, após brincar com meus filhos e deixar que segurasse os bebês dele, o João Paulo foi. Eu recusei apontar quantas outras pessoas morreram de covid-19 na mesma noite que ele, na mesma cidade e no mesmo Estado.

João não é número. Foi homem, foi marido, pai, amigo, profissional e, infelizmente, vítima. Com ele vai um pouco de nós, mas também fica muito dele. Como a morte é de quem fica, vamos resistir.

(*) Sandra Luz é jornalista e produz a coluna diária Boletim Covid O Jacaré

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